Fluxograma de Dor Torácica na UBS: Quando Encaminhar e Como Conduzir
Guia prático para triagem de dor torácica na APS: sinais de alarme, ECG, estratificação de risco e critérios de encaminhamento.
Dor torácica é uma queixa frequente e, ao mesmo tempo, uma das que mais gera medo de perder um evento grave. Na APS, o objetivo não é fechar diagnóstico de tudo. O objetivo é identificar risco imediato, estabilizar quando necessário e encaminhar com segurança quando existe possibilidade de condição ameaçadora à vida.
Este texto te entrega um fluxograma mental simples para usar na UBS, com foco em decisão rápida.
Por que a APS é decisiva na dor torácica
A APS coordena o cuidado e organiza fluxos com a rede. Na prática, isso significa: reconhecer urgência, acionar transporte quando necessário e direcionar corretamente para unidade de referência.
Passo 1: identifique sinais de alarme primeiro
Se existe qualquer sinal de gravidade, a prioridade é atendimento imediato e encaminhamento.
Sinais de alto risco
- •Instabilidade hemodinâmica: PAS baixa, choque, extremidades frias, rebaixamento importante
- •Dispneia intensa, cianose, saturação baixa
- •Síncope, confusão aguda
- •Dor torácica com padrão muito sugestivo de isquemia: opressiva, retroesternal, irradiação, associada a sudorese e náuseas
- •Dor súbita intensa em rasgo (pensar em dissecção de aorta)
- •Dor com sinais de pneumotórax hipertensivo (desvio traqueal, instabilidade)
- •Dor associada a déficit neurológico focal
- •Paciente com múltiplos fatores de risco e aparência de gravidade
Passo 2: avaliação inicial em 3 minutos
O básico que resolve 80% dos casos:
- •Sinais vitais: PA, FC, FR, SpO2, temperatura
- •História curta orientada para risco
- •Exame físico focado
História rápida que importa
- •Início: súbito ou gradual
- •Duração e evolução
- •Características: pressão, aperto, queimação, pontada
- •Localização e irradiação
- •Fatores de piora e melhora: esforço, repouso, respiração, posição
- •Sintomas associados: dispneia, sudorese, vômitos, palpitações, síncope
- •Contexto: pós esforço, ansiedade, infecção respiratória, trauma
Exame físico focado
- •Perfusão e estado geral
- •Ausculta cardíaca e pulmonar
- •Sinais de trombose em membros inferiores quando suspeita de TEP
- •Dor reprodutível à palpação (sugere parede torácica, mas não exclui grave)
Passo 3: ECG na UBS quando disponível
Se a UBS tem acesso, o ECG deve ser feito rapidamente em quem chega com dor torácica aguda. Em linhas de cuidado, recomenda-se janela curta para ECG em casos suspeitos. Na prática: ECG alterado em segmento ST ou padrão compatível com isquemia muda o destino do paciente.
Critérios objetivos de encaminhamento imediato
Encaminhe de forma urgente se houver suspeita de:
- •Síndrome coronariana aguda
- •Dissecção de aorta
- •Tromboembolismo pulmonar com instabilidade ou alto risco clínico
- •Pneumotórax hipertensivo
- •Tamponamento cardíaco
- •Arritmias com repercussão hemodinâmica
- •Qualquer instabilidade clínica
Mesmo sem ECG, a clínica e os sinais vitais podem ser suficientes para definir urgência.
Quando dá para manejar na UBS com segurança
Existe dor torácica que frequentemente é benigna e pode ser acompanhada na APS, desde que você tenha excluído sinais de gravidade.
Exemplos comuns
- •Dor musculoesquelética: dor reprodutível à palpação, piora com movimento, história de esforço
- •Refluxo e dispepsia: queimação retroesternal pós alimentação, melhora com antiácido
- •Ansiedade e síndrome do pânico: dor com hiperventilação, parestesias, contexto emocional
- •Causas respiratórias leves: tosse e dor pleurítica em quadro viral sem dispneia importante
O erro clássico: rotular como ansiedade antes de avaliar risco. Faça o básico sempre.
Dor torácica estável e investigação ambulatorial
Para dor recorrente associada a esforço e fatores de risco, o caminho é investigação programada conforme disponibilidade local e encaminhamento quando indicado. Diretrizes internacionais organizam fluxos distintos para dor torácica aguda e dor estável.
Erros comuns na UBS
- •Não medir sinais vitais ou não registrar SpO2
- •Não considerar equivalentes anginosos: dispneia, epigastralgia, mal estar
- •Tratar como gastrite sem avaliar risco cardiovascular
- •Fazer ECG tardio quando unidade tem acesso
- •Encaminhar todo mundo sem critério (sobrecarrega a rede) ou segurar caso grave (risco extremo)
Como o APS Flow ajuda
Um bom fluxo de dor torácica na APS precisa de checklist de sinais de risco, orientação de conduta e encaminhamento, e registro rápido no atendimento. O APS Flow organiza isso em fluxo clínico, reduzindo erro de triagem e acelerando decisão.
Referências
- •Ministério da Saúde, Linhas de Cuidado: Dor Torácica (APS como coordenadora do fluxo).
- •Manejo inicial na atenção primária e recomendação de ECG quando disponível.
- •Diretriz brasileira de atendimento à dor torácica em unidade de emergência (SBC, 2025).
- •NICE CG95: avaliação de dor torácica de início recente e organização do raciocínio clínico.