Doenças Crônicas

Diabetes Mellitus na APS: Rastreio, Diagnóstico e Manejo Prático

Guia completo para o manejo do Diabetes Mellitus tipo 2 na Atenção Primária. Critérios diagnósticos, metas glicêmicas, escalonamento terapêutico e quando encaminhar.

12 min de leituradiabetes, DM2, metformina

O Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma das condições crônicas mais prevalentes na Atenção Primária à Saúde (APS). Estima-se que mais de 16 milhões de brasileiros vivam com diabetes, e a maioria dos casos é diagnosticada e acompanhada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Um manejo adequado na APS reduz complicações, internações e mortalidade.

Rastreio: Quem Investigar?

De acordo com as diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e do Ministério da Saúde, o rastreio deve ser realizado em adultos assintomáticos com fatores de risco:

  • •Idade ≥ 45 anos
  • •Sobrepeso ou obesidade (IMC ≥ 25 kg/m²)
  • •Histórico familiar de DM em parente de 1º grau
  • •Hipertensão arterial sistêmica (≥ 140/90 mmHg ou em uso de anti-hipertensivo)
  • •Dislipidemia (HDL < 35 mg/dL ou triglicerídeos > 250 mg/dL)
  • •Diabetes gestacional prévio ou macrossomia fetal
  • •Síndrome dos ovários policísticos (SOP)
  • •Sedentarismo
  • •Acanthosis nigricans ou sinais de resistência insulínica
  • •Pré-diabetes em exame anterior (glicemia de jejum 100-125 mg/dL ou HbA1c 5,7-6,4%)

Critérios Diagnósticos

O diagnóstico de DM2 pode ser confirmado por qualquer um dos seguintes critérios, repetidos em duas ocasiões distintas (exceto se sintomas clássicos + glicemia ≥ 200 mg/dL):

ExameNormalPré-diabetesDiabetes
Glicemia de jejum< 100 mg/dL100–125 mg/dL≥ 126 mg/dL
HbA1c< 5,7%5,7–6,4%≥ 6,5%
TOTG 2h< 140 mg/dL140–199 mg/dL≥ 200 mg/dL
Glicemia aleatória*——≥ 200 mg/dL

* Glicemia aleatória ≥ 200 mg/dL com sintomas clássicos (poliúria, polidipsia, perda de peso) confirma o diagnóstico em amostra única.

Metas Terapêuticas

As metas devem ser individualizadas conforme idade, comorbidades e risco de hipoglicemia:

Perfil do PacienteHbA1c AlvoGlicemia de JejumGlicemia Pós-prandial
Adulto sem comorbidades graves< 7,0%80–130 mg/dL< 180 mg/dL
Idoso funcional (sem fragilidade)< 7,5%90–150 mg/dL< 180 mg/dL
Idoso frágil / comorbidades graves< 8,0–8,5%100–180 mg/dL< 200 mg/dL
Gestante com DM prévio< 6,0%< 95 mg/dL< 140 mg/dL (1h)

Tratamento Não Farmacológico

A mudança de estilo de vida é a base do tratamento e deve ser prescrita para todos os pacientes, mesmo quando em uso de medicação:

  • •Alimentação saudável: reduzir açúcares simples e ultraprocessados, priorizar fibras, vegetais e grãos integrais
  • •Atividade física: mínimo 150 min/semana de exercício aeróbico moderado + fortalecimento muscular 2x/semana
  • •Perda de peso: redução de 5–7% do peso corporal melhora significativamente o controle glicêmico
  • •Cessação do tabagismo: fator de risco cardiovascular independente
  • •Educação em saúde: autocuidado, automonitoramento glicêmico quando indicado

Escalonamento Terapêutico — Passo a Passo

O Ministério da Saúde e a SBD recomendam escalonamento progressivo. A Metformina é a droga de primeira linha para todos os pacientes com DM2 sem contraindicação:

1º Passo: Metformina

  • •Dose inicial: 500 mg 1x/dia (às refeições para reduzir efeitos GI)
  • •Titulação: aumentar 500 mg a cada 1–2 semanas
  • •Dose alvo: 1.500–2.000 mg/dia (dividida em 2–3 tomadas)
  • •Dose máxima: 2.550 mg/dia
  • •Contraindicação: TFG < 30 mL/min (ajustar dose se 30–45 mL/min)
  • •Monitorar vitamina B12 anualmente (uso crônico causa deficiência)

2º Passo: Adicionar Sulfonilureia

Se HbA1c permanecer acima da meta após 3 meses com dose otimizada de metformina. Opções disponíveis na RENAME/SUS:

  • •Gliclazida MR 30–120 mg/dia (preferível — menor risco de hipoglicemia)
  • •Glibenclamida 2,5–20 mg/dia (maior risco de hipoglicemia — evitar em idosos e DRC)

3º Passo: Insulinização

Indicada quando HbA1c persiste acima da meta com terapia oral combinada otimizada, ou em situações específicas:

  • •Insulina NPH bedtime: iniciar 10 UI (ou 0,1–0,2 UI/kg) à noite
  • •Titulação: aumentar 2 UI a cada 3 dias até glicemia de jejum na meta
  • •Manter metformina associada (reduz dose de insulina necessária)
  • •Suspender sulfonilureia se risco de hipoglicemia
  • •Insulinização plena: adicionar insulina regular pré-prandial se necessário

Monitoramento na APS

O acompanhamento regular é fundamental para prevenir complicações micro e macrovasculares:

Exame / AvaliaçãoFrequência
HbA1cA cada 3–6 meses
Glicemia de jejumA cada consulta
Perfil lipídicoAnual (ou a cada 6 meses se alterado)
Creatinina + TFG (CKD-EPI)Anual
Microalbuminúria (RAC)Anual
Fundo de olhoAnual (retinopatia diabética)
Exame dos pésA cada consulta (monofilamento + inspeção)
ECGAnual se fatores de risco CV
TSHAo diagnóstico (DM1) / conforme clínica (DM2)
Peso, PA, circunferência abdominalA cada consulta

Exame dos Pés: Checklist Rápido

O pé diabético é uma das complicações mais preveníveis. Em toda consulta na APS, realizar:

  • •Inspeção: deformidades, calos, fissuras, micoses, úlceras
  • •Teste do monofilamento 10g: 4 pontos plantares (hálux, 1º, 3º e 5º metatarso)
  • •Palpação de pulsos (tibial posterior e pedioso dorsal)
  • •Classificação de risco: 0 (sem neuropatia) a 3 (úlcera/amputação prévia)
  • •Orientar: calçados adequados, higiene, não andar descalço, corte reto das unhas

Quando Encaminhar ao Especialista?

A maioria dos pacientes com DM2 pode ser manejada inteiramente na APS. Considerar encaminhamento para endocrinologia ou especialidade quando:

  • •DM tipo 1 confirmado ou suspeito (anti-GAD, anti-IA2)
  • •HbA1c persistentemente > 9% apesar de terapia otimizada por 6+ meses
  • •Necessidade de insulinização plena com dificuldade de ajuste
  • •Complicações avançadas: retinopatia proliferativa, nefropatia (TFG < 30), pé diabético grau 2–3
  • •Gestante com DM prévio (pré-natal de alto risco)
  • •Hipoglicemias graves recorrentes
  • •Suspeita de diabetes secundário (pancreatite, Cushing, etc.)

Calculadoras Úteis no APS Flow

No APS Flow, você encontra calculadoras validadas que auxiliam no manejo do diabetes na rotina da UBS:

  • •CKD-EPI (Taxa de Filtração Glomerular) — monitorar função renal
  • •IMC (Índice de Massa Corporal) — avaliar sobrepeso/obesidade
  • •Risco Cardiovascular (Framingham/ASCVD) — estratificar risco
  • •FINDRISC — rastreio de risco para DM2
  • •Dose de Insulina — cálculo de dose por peso

Referências

  • •Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Diretrizes 2024-2025.
  • •Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica nº 36 — Diabetes Mellitus.
  • •American Diabetes Association (ADA). Standards of Care in Diabetes, 2025.
  • •NICE Guidelines. Type 2 diabetes in adults: management (NG28).
  • •Protocolo RENAME — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais.

Use essas ferramentas na prática

No APS Flow você encontra calculadoras, prescrições e fluxogramas prontos para sua rotina na UBS.